Guardas municipais e advogados presos em Vila Velha: operação mira elo com o PCV
Agentes da Inteligência e defensores atuavam como mensageiros do tráfico e vendiam drogas apreendidas. Entenda o esquema desarticulado pelo Gaeco no ES.
Equipes do Gaeco e da Polícia Militar reúnem-se antes do cumprimento dos mandados da terceira fase da Operação Telic. (Foto: Divulgação/MPES)Três guardas municipais e três advogados foram detidos entre a quarta-feira (25) e a manhã desta quinta-feira (26) durante a terceira fase da Operação Telic. O grupo é investigado por atuar como braço operacional do Primeiro Comando de Vitória (PCV). O esquema transformava agentes de segurança e defensores da lei em mensageiros e traficantes da facção. Com a expedição de oito mandados de prisão, o caso envolvendo guardas e advogados presos em Vila Velha expõe uma rede estruturada de infiltração do crime organizado nas instituições públicas capixabas.
Como os agentes públicos atuavam para o tráfico
A apuração do Ministério Público do Espírito Santo (MPES) revelou que os suspeitos trocavam mensagens constantes com o líder do esquema, que já cumpre pena em uma unidade prisional do estado. A liderança emitia ordens de dentro da cadeia para os integrantes em liberdade.
Para blindar o fluxo de informações criminosas, a quadrilha utilizava o acesso privilegiado dos servidores. A investigação constatou que um dos agentes atuava no Centro de Inteligência da Guarda Municipal, enquanto outro fazia parte da equipe de rondas táticas. Esse posicionamento estratégico permitia ao grupo antecipar ações policiais e orquestrar ataques precisos contra facções rivais.
A tática dos “catuques” nos presídios capixabas
Os advogados investigados usavam o direito constitucional de visita aos clientes para viabilizar a comunicação ilícita. Eles levavam e traziam bilhetes manuscritos, conhecidos no jargão do sistema prisional como “catuques”.
Essa ponte externa garantia que a cúpula do PCV continuasse comandando a violenta disputa por território na Grande Terra Vermelha. A região, que é formada por 21 bairros e reúne cerca de 200 mil moradores, registrou pelo menos dez assassinatos apenas entre fevereiro e março deste ano em decorrência direta da guerra do tráfico financiada por esse sistema.
Venda de drogas apreendidas pela própria corporação
Além de repassar informações de inteligência para os criminosos, os servidores cruzaram outra linha criminal. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) constatou que os agentes comercializavam drogas que haviam sido recolhidas por eles mesmos durante o patrulhamento rotineiro.
A denúncia aponta que o grupo também desviava dinheiro e materiais apreendidos, utilizando o cargo público como justificativa para manter a custódia dos itens antes de repassá-los. Entre os alvos confirmados está o guarda municipal Iuri Silva e a sua esposa, a advogada Bárbara Bastos. O casal já havia sido alvo de mandados de busca na primeira fase da operação, deflagrada em agosto do ano passado.
Mandados cumpridos na Grande Vitória
A ação conjunta mobilizou o Gaeco, o Núcleo de Inteligência da Assessoria Militar do MPES, a Polícia Militar e a Secretaria de Justiça (Sejus). As equipes cumpriram oito mandados de prisão temporária e nove mandados de busca e apreensão nos municípios de Vila Velha, Cariacica e Serra.
Durante as incursões, os policiais localizaram celulares e diversos bilhetes manuscritos ditados por detentos e redigidos pelos defensores investigados. O inquérito sobre os guardas e advogados presos em Vila Velha segue tramitando sob sigilo judicial na 7ª Vara Criminal da cidade.
O que dizem a Prefeitura e a OAB-ES
A Corregedoria da Guarda Municipal de Vila Velha informou, em nota oficial, que acompanha o desenrolar do caso de perto e que a corporação colaborará integralmente com as investigações no que for necessário.
Já a Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-ES) destacou que representantes acompanharam as buscas para assegurar o respeito aos direitos da advocacia. A Ordem ressaltou seu compromisso com a ética e a legalidade na atuação profissional, pontuando que a preservação do Estado Democrático de Direito deve ser garantida durante toda a investigação.


